Dois dias atrás toquei com o guitarrista Steve Vai e a orquestra Camerata Florianópolis no Rock in Rio. Difícil descrever a sensação de estar num palco como aquele, tocando em frente a cem mil pessoas; é uma experiência única. Assim como tocar na frente de uma pessoa ou mesmo sozinho. Explico-me.
Faço essa observação devido a uma pergunta que me foi feita durante uma entrevista: “Tocar com Steve Vai nesse festival é algo transformador em sua trajetória artística”? Sim, claro! Da mesma forma que todas as parcerias pelas quais passei em minha vida foram e são transformadoras, respondi. Todas, sem exceção. Mesmo as ruins (principalmente as ruins) deixaram suas marcas. A pergunta do repórter se insere no universo imaginário que faz das celebridades o ápice do desejo e da realização pessoal. É mais ou menos como achar que transar com a Angelina Jolie será uma experiência infinitamente superior a transar com qualquer outra mulher. Fora o duvidoso prazer de poder gabar-se disso junto aos amigos (“Cara, você não vai acreditar com quem saí ontem à noite!”), nada garante que a experiência com a beldade-celebridade será mais especial ou prazerosa.
Não me entendam mal, não estou me desfazendo de minha experiência no Rock in Rio – ela foi maravilhosa! O que me incomoda é que se subestime e desvalorize nossas experiências diárias; que ao qualificá-las de “pequenas” e corriqueiras, se lhes negue qualquer possibilidade de valor (que é quando as pessoas começam a duvidar de suas escolhas e passam a viver frustradas porque não chegaram aonde as revistas de celebridades dizem que pessoas “de sucesso” deveriam chegar). Nossa cultura insiste em confundir grandeza com grandiosidade. Pode haver grandeza (ou não) num momento artístico envolvendo dez pessoas, enquanto um evento grandioso como o Rock in Rio pode (ou não) passar-lhe ao largo.
No dia-a-dia vivemos coisas extraordinárias. Sem holofotes. Sem repórteres. Sem curtidas no Facebook. Como lamenta em seu monólogo final o androide do filme BladeRunner, “todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva”. Sim: se perderão. É essa a grandeza do efêmero.
Alberto Heller

