Lá pelo século VI antes de nossa era, o Rei Fálaris de Agrigento (atual Sicília) mandou construir uma máquina infernal: um touro de bronze oco, adaptado com tubos sonoros; dentro dele, condenados eram trancafiados e uma fogueira era acesa sob o ventre da besta para que fossem lentamente queimados vivos. Mas o requinte da crueldade eram os tubos, que transformavam os gritos das vítimas em harmoniosas melodias.
Hoje já não temos touros de bronze, mas a lógica – de “melodizar” o sofrimento humano – persiste. Na internet, especialmente nas redes sociais, temos a falsa sensação de que todas as nossas queixas encontrarão interlocutores e respaldo, que seremos ouvidos e consolados. Mas após as primeiras 24 horas de comentários e apoios virtuais, calam-se as vozes, os interesses retornam às novidades do dia (o consumo e o entretenimento), volta-se ao silêncio. O grito (seja de dor, tristeza, raiva ou indignação) vira uma “lembrança” na timelinee ali se perde, mesclado a mil outros momentos. Pequenas dissonâncias agora incorporadas à grande sinfonia de um coro invisível. Pode gritar à vontade: aqui tudo vira música.
Alberto Heller

