Em 2012 participei do encontro anual SAND – Science and Nonduality – em San Rafael, Califórnia. Durante vários dias, mais de cinquenta conferencistas de várias partes do mundo debateram temas ligados a religião, ciência, psicologia e antropologia, tendo sempre em comum o anseio humano pela dimensão espiritual. Hinduístas e xamanistas, budistas e cristãos, sufis e cabalistas – junto a físicos, médicos, psiquiatras, artistas, gurus, professores, filósofos, sociólogos –, todos conversando, debatendo, aproximando-se e distanciando-se em suas teorias e práticas, mas sempre com amabilidade e respeito.
Além dos nomes famosos e badalados, havia também um grande número de profissionais administrando, paralelamente, palestras, práticas e vivências em locais menores. Foi lá que tive a sorte de conhecer uma indígena australiana chamada Denise Groves, que deu uma conferência intitulada Cosmologia Indígena. Falou basicamente da vida em sua tribo, os Nyiapali; do conceito central de terra (bem diferente de nação ou país), de sua interconexão com a natureza, com as estrelas, com o cosmos. O tempo todo usava o ‘nós’, raramente o ‘eu’. Foi quando me dei conta de que os outros conferencistas haviam falado o tempo todo apenas no eu, no indivíduo: falavam na experiência pessoal, na iluminação pessoal, na salvação (pessoal) da alma, na meditação pessoal, nas dores e superações pessoais. O indivíduo fora do seu grupo, ausente da sociedade, independente dos laços sociais: abstrato e abstraído em uma espiritualidade solitária e alienada. Na verdade, a Srta. Groves sequer usou a palavra espiritualidade: falou em interconexão, em interdependência, na continuidade da vida, no fluxo dos ciclos naturais (nascimento e morte, estações do ano etc.) – tudo isso a partir de uma vivência comunitária e social.
Um autor tibetano que muito aprecio, Chögyam Trungpa, escreveu em 1973 um livro intitulado ‘Cutting through spiritual materialism’, onde denuncia um erro comum: achar que estamos numa vereda espiritual quando estamos apenas consumindo produtos ditos “espirituais” colocados a serviço de uma lógica utilitarista e neurótica à qual chamou materialismo espiritual. Tipo o sujeito que se tranca sozinho numa sala, senta-se num tapete especial para meditação (comprado numa loja especializada em artigos esotéricos), acende um incenso, coloca um CD de música “espiritual” e medita para que, alcançada a “harmonia interior”, obtenha mais sucesso nos negócios.
Perdemos o contato com a terra. Com o simples. Com o grupo. A verdadeira espiritualidade renuncia até mesmo ao seu próprio nome.
Alberto Heller

