Com atraso de alguns anos, estou finalmente assistindo àquele seriado Walking Dead. Para quem não conhece: num cenário pós-apocalíptico, zumbis dominaram o mundo e os humanos restantes lutam desesperadamente pela sobrevivência. Suas preocupações se resumem a encontrar comida e, ao mesmo tempo, não virar comida (de zumbi). Nesta madrugada (depois de quatro episódios jurando ser aquele o último antes de finalmente ir dormir) me vi pensando – como sempre – em bobagens: num mundo assim, qual seria o lugar (ou o papel) da poesia (poesia designando genericamente todas as expressões artísticas, da música à literatura, da pintura à dança, do teatro à escultura)? Ou estaríamos tão (preo)ocupados tentando não morrer que todo poético ficaria excluído e sem lugar algum?
Num universo reduzido às necessidades básicas, a arte apareceria apenas enquanto luxo, reminiscência nostálgica, devaneio histórico aludindo uma sociedade perdida, ou continuaria tendo um apelo humano atual e necessário? Somos os artistas úteis? Enfim, a pergunta que me angustia tem uma natureza bem “prática e realista”: num mundo povoado por zumbis ou dinossauros ou extraterrestres, faria sentido eu continuar tocando piano, compondo e escrevendo?
Vem-me à memória uma cena de um filme (absolutamente não recordo o título) no qual um avô dá banho em seu neto e, enquanto isso, conta a história da formiga e da cigarra. A cigarra passara o verão todo cantando enquanto a formiga não parava de trabalhar. Por mais que a formiga precavida e laboriosa avisasse sua colega dos perigos de sua conduta irresponsável, a cigarra só queria saber de cantar. Mas eis que acabou o verão, veio o frio e a neve, os alimentos praticamente desapareceram. “O que aconteceu então, vovô?”, perguntou o menino. “A cigarra comeu a formiga”, respondeu o avô.
Alberto Heller

