Na antiguidade remota a passagem do tempo era medida pelos astros: o sol, a lua, as estrelas. Depois vieram o relógio de sol, o relógio de água (clepsidra), o relógio de areia e, finalmente, ELE, O Relógio, que se insinuou poderoso nos lugares de destaque nas praças das cidades medievais. Inicialmente, esses relógios só tinham o ponteiro das horas; serão necessários muitos anos até que surja o ponteiro dos minutos e, mais tarde, também o dos segundos. Em 1504 Peter Henlein (1485-1542) inventa, em Nuremberg na Alemanha, o primeiro relógio de pulso – e assim o monstro da praça adentra os lares e os locais de trabalho, passando a nos acompanhar a todos os lugares o tempo todo.
Graças aos relógios chegamos à concepção disso a que chamamos “dia”: 24 horas divididas em 1.440 minutos divididos em 86.400 segundos. O dia como uma fatiazinha minúscula da eternidade. Mas será a eternidade um fluir infinito de dias ou o cessar de sua passagem? Como cita Borges em sua História da Eternidade, a propósito dos eleatas: “É impossível que em oitocentos anos de tempo transcorra um prazo de catorze minutos, porque antes é obrigatório que tenham passado sete, e antes de sete, três minutos e meio, e antes de três e meio, um minuto e três quartos, e assim infinitamente, de maneira que os catorze minutos nunca se cumprem“. A eternidade estaria, assim, dentro do próprio tempo e não em sua (ilusória) sucessão (ao invés de quebrarmos o relógio, talvez devêssemos mergulhar nele).
O relógio é especialmente usado em relação à divisão de tarefas, a isso que ficou conhecido como trabalho: ele determina se “aproveitamos” ou não o tempo (afinal, nada mais grave que o tempo “ocioso” e “não produtivo”); preguiça, indolência, acídia: pecados capitais. Capitalismo e Igreja se unem para associar Deus ao trabalho, à ordem, à pontualidade e ao esforço pessoal permanente. O tempo precisa ser “aproveitado”, “bem utilizado”, deve “render” frutos na vida terrena e na celeste, segundo a segundo (tivéssemos ainda apenas o ponteiro das horas, haveria demasiada margem livre para imprecisões, distrações e descansos inúteis). Ele nos diz quando acordar (6:45), quando começar a trabalhar (8:00), quando ter fome (entre 12:00 e 13:00), quando levar e buscar as crianças aos locais chamados escolas; nos informa que somos lentos demais para determinadas tarefas (“lerdos”, “ruins”, “incapazes”), ou rápidos demais para outras (“já gozou!?!?!”). Eles nos “organizam”, nos qualificam ou desqualificam, nos classificam (regulam, igualam, generalizam, normalizam, modelam, domesticam, disciplinam; impõem um ritmo anônimo a uma sociedade também anônima).
É preciso correr, é preciso ter pressa para ser (algo). Veja-se, por exemplo, os novos programas de concursos culinários, tão em moda na TV: não basta você cozinhar um belíssimo prato: você deve fazê-lo em quarenta e cinco minutos, nem um minuto a mais. Corra, faltam apenas dez segundos!!! Nove, oito, sete, seis, cinco…
Alberto Heller


3 Comentários. Deixe novo
Por isso… O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo têm e o tempo respondeu ao tempo tempo que o tempo tempo tem quanto tempo o tempo tem! Não me lembro quem escreveu, porque faz muito tempo que ouvi isso, só sei que existem instantes em nossa vida que duram uma eternidade e nem o tempo consegue apagar! Bela reflexão sobre o relógio que insiste em marcar as horas que veem o tempo passar…
Talvez o centro do relógio seja como o olho do furacão: nele há calma. Já à sua volta…
É uma hipótese…