Após semanas de intransigentes brigas à distância, as palavras cada vez mais duras no embate das ideias antagônicas, decidiram finalmente ter chegado ao limite: somente uma ideologia poderia ser verdadeira, logo somente uma poderia sobreviver. Marcaram um duelo.
Chegaram ao local do encontro com suas armas devidamente carregadas e afiadas: os passos decididos, a respiração intensa, o olhar fixo. Ainda uma última vez cada um tentou provar o quão estúpidas eram as teorias do outro, e mais uma vez confirmou-se que suas posições eram inamovíveis, seus credos, irreconciliáveis. Decidiram-se então pela espada, mas a falta de jeito dos dois com a lâmina era visível – “já duelou antes?”, “não”. Olharam-se então de outro modo, subitamente cônscios da fragilidade um do outro. Perceberam pela primeira vez os traços de cada um: sua expressão, seu rosto, rugas, cicatrizes, jeito de vestir, jeito de andar. Esperaram, calados, e quase que ao mesmo tempo recuaram. Espadas novamente embainhadas, um chá foi preparado. Sentados, bebiam, perfumando-se de silêncio. Assim encontrou-os o entardecer, os corações apaziguados pela brisa fresca. Já não havia ideias: apenas dois homens, irmanados com a natureza, acolhidos pela mãe-terra, respirando noite adentro.
Alberto Heller


7 Comentários. Deixe novo
Ual!!! Maravilhoso!!!
Assim, deveria ser… Tudo.
Um belo tema para uma ópera!
Discutiam acaloradamente. Um dizia: A#; e o outro: Bb.
Discutiam acaloradamente. Um dizia: A#; e o outro: Bb.
Boa!
É verdade! A se pensar
Obrigado! Abraço!