A vida é uma coisa engraçada: às vezes temos sorte, às vezes temos azar. Mas a coisa é um pouco mais complexa que isso. Você pode ter o azar de ter sorte (como ao vencer um festival de música, ser contratado por uma grande gravadora e depois passar o resto da vida escravo de um mesmo estilo, eternamente preso a um padrão e imagem que sequer o representam e que irão atormentá-lo e fazê-lo infeliz pelo resto dos seus dias); pode ter a sorte de ter azar (como ao ser reprovado injustamente num concurso público no qual você era de longe o melhor candidato – mas que, graças a isso, livrou-se de ter de conviver com pessoas incompetentes e desonestas, poupando-se assim de úlceras e cânceres); pode ter a sorte de ter sorte (nascer lindo e perfeito, ter uma vida linda e perfeita e morrer de velho durante o sono); e pode, ainda, ter o azar de ter azar (nascer com doenças graves, viver em meio à miséria, ter uma família cruel ou ausente, não conhecer o amor nem a amizade). Merecimento? Acaso? Destino? Karma? Deus malvado, Deus brincalhão, Deus impotente, Deus sádico, Deus inexistente?
Quando eu era criança meu tio contou a seguinte piada (bem, ele disse ser uma piada, mas verão que não tem graça alguma): era uma vez dois irmãos, um que vivia brabo e carrancudo, outro que vivia contente. Certo Natal os pais das crianças resolveram fazer um experimento radical: ao mal humorado deram de presente um brinquedo absurdamente caro e maravilhoso: uma cidade inteira com milhares de peças e encantos; ao outro, deram de presente um cocô. Sim, isso mesmo, um cocô: feio, grande e fedido. Algum tempo depois foram verificar os efeitos da experiência; o mal humorado estava enfurecido: “as luzes do foguete não acendem, os aviões são de hélice e não supersônicos, os soldadinhos têm todos a mesma cara sorridente” e citava outros mil defeitos daquilo que, segundo ele, era uma porcaria. Já o outro estava radiante, felicíssimo. A mãe não se conteve: “mas como você pode estar feliz? Você ganhou um pedaço de bosta!”. “Não, eu ganhei um unicórnio!”, respondeu o menino; “ele fez cocô e depois saiu voando pela janela. Estou feliz porque agora está livre e não preso aqui neste apartamentico”.
MORAL DA HISTÓRIA: Não faço a mínima ideia – ainda estou tentando entender essa bagunça toda. Mas se a vida te der limões, compre uma Coca-Cola.
Alberto Heller

