“Doutor, sofro de niilismo”.
“Com que frequência?”
“Com uma frequência cada vez mais frequente”.
“E onde isso o incomoda?”
“Bem aqui, ó, entre a escápula e a virilha”.
“Vejo que seus conhecimentos de anatomia são um tanto vagos… Os sintomas começaram antes ou depois de ler Nietzsche?”
“Na verdade, começaram depois de ouvir Mahler”.
“Quer dizer então que vai de Mahler a pior, hein? HAHAHAHA – desculpe, piada sem graça. Possui antecedentes familiares?”
“Minha avó sempre dizia que meu avô era um nada”.
“E era?”
“Não sei, minhas lembranças se esvaziam, sinto um aperto no peito…”
“É comum as pessoas confundirem niilismo com infarto, e quase sempre são apenas gases. Defeca normalmente?”
“Só quando como”.
“Frequenta a academia?”.
“Não suporto a esteira: corro, corro e não chego a lugar algum, aí o vazio existencial volta a doer”.
“Referia-me ao ambiente acadêmico – é péssimo para os niilismos de toda espécie. Alguma perversão digna de nota?”
“Leio Paulo Coelho”.
“Fique tranquilo, isso ficará entre nós, aqui tudo é estritamente confidencial. Falando nisso, como vai sua vida sexual?”
“Campeã em natação: nada durante a semana, nada no final de semana”.
“Consultou outros especialistas antes de vir a mim?”
“Dois filósofos (que só pioraram a situação pois me encheram de leituras complicadas), um padre, um monge tibetano e um rabino. Experimentei também massagem tailandesa, florais e Pizza Hut, mas nada ajudou.”
“Esqueça tudo isso; na verdade, o niilismo só conhece uma cura: pudim de leite condensado, todos os dias. Mas também recomendo ver filmes deitado na cama (aventura, suspense e comédia – fuja dos dramas e filmes de arte, filmes europeus nem pensar); leia histórias em quadrinhos e coma em bons restaurantes sempre que puder; cachimbo ou charutos, acompanhados de uma boa bebida; ande sempre perfumado; evite aborrecimentos (nada de consultar seu saldo bancário, por exemplo). E um último conselho: chega de pós-românticos; a partir de agora, em lugar de Skriabin, Mahler, Richard Strauss e Busoni, ouça Corelli, Scarlatti e Händel. De Bach talvez os concertos, mas nada de fugas!”
“E se não funcionar?”
“ABBA – discografia completa, incluindo aprender as letras e as coreografias”.
“Uau! Sério?!?!?”
“Ninguém disse que seria fácil…”
Alberto Heller


6 Comentários. Deixe novo
Muito bom Alberto. Andar perfumado foi a melhor.Todas as sacadas muito boa. Mas o texto me deixou niilista
Nada que um café forte não resolva rsrsrs. Abração!!!!
Cruel foi ler Paulo Coelho, todo mundo lê e ninguém confessa!!! Ótima consulta!!
Na época em que ele lançou os primeiros livros, eu li sim (lembro que curti muito o Diário de um Mago, por exemplo). Depois não acompanhei mais, confesso que nem sei o que ele fez nos últimos dez ou quinze anos. A brincadeira foi mais no "vox populi" rsrs.
Muito bom. Minha sugestão como sua Pediatra é se afundar no Schubert, no pudim e…principalmente controlar a glicemia. Esquece o Paulo Coelho.
Como minha médica, nada mais me resta senão obedecer. Que venham os pudins (você que se vire depois com o resultados dos exame de sangue hehehe)