A foto não “eterniza” o instante; a foto fala do instante impossível. Em algumas fotos nos vemos mais bonitos do que achamos que somos: são as que escolhemos para nos representar no perfil das redes sociais, por exemplo (tão diferentes daquela maldita imagem na carteira de identidade). Mas na maioria das fotos nos vemos como não gostaríamos de ser (vistos): aqui não saí bem. Passamos a negá-las (negar-nos): esse não sou eu. Não sou assim (tão feio). Ou seja: nas fotos somos/estamos sempre mais feios ou mais bonitos do que somos, nunca “como somos” (“realmente”).
No fundo, não fazemos a mínima ideia de quem/como somos – e é justamente onde reside o problema: somos corpo-ideia, não corpo-corpo. Sabemos de nós pelo olhar do outro, vemo-nos com olhar de outro. Duvidamos: sou amável? Sou desejável? Sou querível? (neologismo simpático). Quando a resposta parece ser positiva, nos alegramos, do contrário, entristecemos. E para além da alegria e da tristeza, a melancolia de saber que não sabemos. A eterna dúvida sobre quem somos.
Logo no início do romance A Imortalidade, de Milan Kundera, o protagonista observa uma senhora de idade sair de uma piscina e despedir-se de seu instrutor de natação com um aceno jovial que poderia muito bem ser o de uma menininha, e passa a cogitar sobre qual teria sido a primeira vez que ela usara tal gesto, e o quanto nossos gestos são atemporais. “Com certa parte de nosso ser vivemos fora do tempo. Talvez só nos apercebamos da idade em momentos extraordinários, mas na maior parte do tempo vivemos sem idade alguma.”
Somos lembrados da passagem do tempo nas fotos e pelas fotos, nessas estranhíssimas imagens que elas nos devolvem. A elas perguntamos: quem sou eu? E nos respondem, esfingianamente: quando és?
Alberto Heller

