Era um alienado.
Enquanto todos se deixavam levar pela fartura e velocidade infinitas do mundo neo-modernista-pós-contemporâneo hiper-mega-super-plus e suas oito mil novidades e atualizações diárias, ele lia e ouvia clássicos: Cervantes, Dostoiévski, Schubert, Beethoven (alternando-os com outros clássicos tais como Asterix, Tintim, Calvin & Haroldo, Pink Floyd). Por mais que tentassem fazê-lo entender e se interessar pelo mundo real e presente, era óbvio que tinha dificuldades (até hoje não entendia, por exemplo, o funcionamento da bolsa de valores – o dinheiro, diga-se de passagem, era-lhe uma necessidade obtusa cuja principal decorrência era a transformação de vocações em ocupações rentáveis; tudo muito estranho e suspeito). Era, como disse, um alienado.
Enquanto passava ano após ano aprofundando suas leituras e estudos pessoais (conectando saberes nada práticos como música e astronomia, literatura e filosofia, arte e espiritualidade), o mundo acelerava mais e mais; o tempo não pertencia mais às pessoas, mas ao “mercado”. Endividadas, venderam-no. Na nova sociedade de supermercado em que tudo é disponível e comprável, ele se sentia ora deslocado, ora ameaçado; magoava-o ver que nesse “admirável mundo novo” tudo era publicidade, tudo era convertido em imagem e que essas imagens tinham por única finalidade criar desejo, demanda e procura; um universo de consumo contínuo, hiperindividualista, no qual todo marketing prometia felicidade e bem estar mas gerava apenas mais falta e mais desejo. Comprava-se conforto (sempre passível de ser aumentado e melhorado), preenchia-se o tempo “livre” com lazer e entretenimento, compensava-se cotidianos vazios com sonhos de férias luxuosas; saldava-se dívidas apenas para logo depois contrair novas e ainda maiores (a abundância nunca suficiente) – um mundo no qual o sujeito, mais que consumir, acabava sendo consumido.
Sua alienação não o impediu de perceber tudo isso – afinal, estava vivo: dirigia, trabalhava, lia jornais, via um pouco de TV (cada vez menos), participava até de redes sociais (cada vez menos também), mas um tanto à distância. Mais sentia isso tudo que propriamente participava (sentia-o através de ansiedade e angústia generalizados, acompanhados de eventuais dores no peito e estranhas taquicardias – era extremamente sensitivo, o coitado: seu corpo captava como uma antena as vibrações que a humanidade emanava e sofria com elas e por elas; por mais que tentasse se isolar, elas o alcançavam e o faziam agitar-se como se fosse ele o responsável por aquela bagunça toda).
Aos poucos, a grande maioria da população enlouqueceu irremediavelmente, e foi finalmente tragada pela Grande Onda. Não ele: ele agarrou-se com toda força à sua biblioteca, esperando heroicamente a passagem desse não anunciado Apocalipse. Poucos sobreviveram. Feliz ou infelizmente (ponto de vista), ele permaneceu.
Era um alienado.
Alberto Heller


5 Comentários. Deixe novo
Fantástico texto! Queria eu poder ser igual a ele!
Oi Valéria! Se gostou do texto, é porque há uma alienada também em você hehe – bem-vinda ao time.
Há um desejo é uma realidade! 50% conflitantes!! Rsrsrs!!!
Acho que sou meio alienada, e confesso…preciso ser mais
Excelente texto, parabéns
Obrigado Carla! Abraço!