Muito se comenta e elogia o fato de Beethoven ter composto suas últimas obras completamente surdo. Embora isso seja um fato digno de nota, a verdade é que boa parte dos músicos profissionais acaba desenvolvendo sua audição interna de tal maneira que é sim possível imaginar o som de uma composição mesmo sem poder ouvi-la. O que realmente me impressiona em Beethoven não é o fato de ele ter conseguido compor surdo, mas de continuar tendo vontade de compor.
E não se trata de uma vontadezinha qualquer: até a última obra, ele não para de crescer, de superar-se, de ir além de toda e qualquer zona de conforto. Ouça-se, por exemplo, seu quarteto de cordas Op.132, em lá menor; ah, aquele terceiro movimento, o Molto Adagio… É o sublime do sublime do sublime, nenhuma palavra o descreve.
Beethoven poderia ter se entregue às lamúrias, à auto-piedade, ao ressentimento; poderia ter se entregue à amargura e ao rancor, à raiva e à frustração; poderia ter se revoltado contra Deus e contra a arte, poderia ter se afundado em depressão e desistido de tudo. Mas não: ele continuou. E continuou. E continuou.
Alberto Heller


3 Comentários. Deixe novo
É uma grande verdade! Isso sempre me impressionou, mas assistindo às paraolimpíadas é paupável a verdade de que o limite é você que se impõe. Beethoven não ouviu ninguém lhe dizer que não podia fazer, por isso continuou fazendo!
Realmente! Somos sempre mais livres e potentes do que a representação que fazemos de nós mesmos.
Alberto, falando em surdez, veja essa menina aos 18m20s do vídeo. Ela é surda e canta maravilhosamente. Como ela diz. Sente o ritmo com os pés no chão e confia na afinação. Que é ótima, por sinal. https://youtu.be/y-pI913zxg0