Estamos em guerra. Um grande amigo meu chegou a falar até em Terceira Guerra Mundial. Se as primeiras guerras se caracterizavam pela invasão e ocupação de territórios (a invasão de uma nação por outra, a violência de um povo contra outro, o choque entre diferentes países), a de agora é entre indivíduos: todos contra todos, numa total intolerância contra qualquer coisa que insinue diferença: os que gostam de preto contra os que gostam de branco, os que gostam de círculos contra os que gostam de triângulos (também aqui parece haver certo tipo de invasão, sentida entretanto no campo simbólico).
Em todas as esferas, em todos os níveis, praticamente não há mais debate, apenas embate. Seja no trânsito ou nas redes sociais, nas discussões políticas ou no ambiente de trabalho, percebemos claramente o nível absurdo de intolerância a que chegamos. Mal e mal, suportamos aqueles que nos são espelho (e mesmo esses tendem a trincar com surpreendente facilidade).
Alguns dirão que sempre houve conflitos, que os vivemos diariamente mesmo em nossos corpos, por exemplo nos processos infecciosos (bactérias, vírus) que ameaçam a integridade do sistema, do organismo. Também palavras podem ameaçar sistemas – e quando nos sentimos ameaçados, nos defendemos, nos protegemos. Se me protejo do outro, é porque vejo nesse outro uma possível ameaça, um possível invasor – um inimigo em potencial. Numa cultura paranoica, vivemos cercados de inimigos, por isso andamos o tempo todo precavidos, alertas, armados, por isso reagimos com força desproporcional à mínima provocação (e tudo é sentido como provocação). Tensos, procuramos inimigos em cada trincheira – e os encontramos! (quem procura, acha).
Alguns dirão que o termo guerra é um exagero, que apenas estamos passando por uma fase de negatividade e de pessimismo, com ânimos exacerbados, intolerância e irascibilidade (briga-se o tempo todo e por qualquer motivo). Mas quem disse que a guerra só acontece quando há sangue e morte?
Brigamos sem parar, parece que nada mais temos em comum, nem mesmo Deus – a modernidade matou Deus (o Nome, a Lei), agora cada um tem seu deus, seu altar, seu código, alteráveis segundo humores e necessidades. Adaptamos os deuses de acordo com nossos desejos (seja feita a minha vontade), e o deus que cada um inventa benevolentemente o perdoa por seus pecados (na verdade, esses pecados decorrem sempre dos outros, nós tão somente reagimos em legítima defesa). O problema é claramente o outro, sempre o outro… (trata-se do oposto absoluto daquele ditado popular irlandês atribuído a Yeats: “não há estranhos aqui: apenas amigos que você ainda não conhece”).
Acalme-se, respire fundo. Pisque várias vezes, até que a alucinação monstruosa à sua frente se dissolva e volte a ser apenas uma pessoa como outra qualquer. Beba uma cerveja com ela (com a pessoa, não com a miragem). Ou soldados não fazem isso?
Alberto Heller


3 Comentários. Deixe novo
Alberto, acho que grande parte desta "guerra" decorre da super exposição a informação é aos outros através da tecnologia (redes sociais, sites, comentários). Hoje somos todos filósofos, políticos, economistas, veganos, socialistas, liberais, ou o oposto disto tudo. Isto nos coloca em constante contato com idéias e ideais que não são os nossos. As redes nos mostram facetas que, antes, desconhecíamos nos outros. As pessoas se expõe, dizem suas posições políticas, afirmam crenças religiosas e defendem ou propagam ideais. Antes, conhecíamos as pessoas aos poucos e não perguntávamos de cara em quem ela votava, qual a religião, qual a cor preferida, se era liberal ou socialista. Demoravamos a criar estes laços de troca de informação. Hoje somos expostos de cara a verdade nua e crua de quem nos cerca. De pronto já criamos simpatia ou antipatia e não damos tempo ao tempo para conhecer de fato o outro. Portanto, concordo, sentemo-nos e vamos tomar cerveja. Vamos nos encantar com o olhar, com a alma e com o coração das pessoas depois deste encanto criado, o resto é detalhe.
Alberto, acho que grande parte desta "guerra" decorre da super exposição a informação é aos outros através da tecnologia (redes sociais, sites, comentários). Hoje somos todos filósofos, políticos, economistas, veganos, socialistas, liberais, ou o oposto disto tudo. Isto nos coloca em constante contato com idéias e ideais que não são os nossos. As redes nos mostram facetas que, antes, desconhecíamos nos outros. As pessoas se expõe, dizem suas posições políticas, afirmam crenças religiosas e defendem ou propagam ideais. Antes, conhecíamos as pessoas aos poucos e não perguntávamos de cara em quem ela votava, qual a religião, qual a cor preferida, se era liberal ou socialista. Demoravamos a criar estes laços de troca de informação. Hoje somos expostos de cara a verdade nua e crua de quem nos cerca. De pronto já criamos simpatia ou antipatia e não damos tempo ao tempo para conhecer de fato o outro. Portanto, concordo, sentemo-nos e vamos tomar cerveja. Vamos nos encantar com o olhar, com a alma e com o coração das pessoas depois deste encanto criado, o resto é detalhe.
Desconecte-se e reconecte-se.