Último dia do mês de agosto de 2016. No dia em que o país se divide em relação ao impeachment da presidente, falece logo no início da manhã a avó de minha esposa. Pegamos a estrada e, quatro horas depois, estamos no velório. Desconsolado, o avô acaricia o rosto da companheira com quem ficara casado mais de setenta anos. Em seus olhos, a dor de quem perdeu seu mundo. Voltará a vida a fazer sentido?
Cumprimento as pessoas. Num sofá, duas senhoras de idade avançada; apresento-me. “Somos amigas dela, temos um grupo que sempre se reúne para o lanche”; “Ela ganhou de nós, foi descansar antes; mas sou a próxima, tenho 86 anos”; “Não, primeiro vou eu, já falei”, “E a partir de agora, nosso lanche – como vai ficar?”. Não respondem, continuam sorrindo. Não estão tristes nem alegres: já se conformaram que a vida é assim, que em algum momento o lanche precisa continuar em outro lugar, em outra existência.
Chega o momento de fechar o caixão. Difícil. Depois, ajudo a carregá-lo pelo longo cemitério. Dia ensolarado, bonito, os ciprestes em paciente silêncio, os mármores acostumados à passagem do tempo. Descobrirei mais tarde que nas ruas do Brasil as pessoas estão se digladiando e se odiando; ali, nada disso importa, nada disso penetra os altos muros de pedra. Fotos dos que já se foram me observam, cheios de vida. Ontem já foi hoje, dizem (hoje será ontem, penso). Você viveu? Aproveitou seu tempo?
O tempo. O tempo o tempo o tempo o tempo.
Alberto Heller


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O tempo. A grande angústia do ser humano: não saber quanto tempo tem. E o grande prazer do ser humano: não saber quanto tempo tem. E a única certeza da vida: a morte.
Uma grande amiga um dia me disse que sabemos quando nos tornamos adultos quando tomamos conta de que somos finitos. Nunca esqueci isso e me dei conta, um dia, que devemos aproveitar ao máximo o tempo que temos nas mãos, porque somos finitos, sem pré-aviso!
Verdade, Valéria. E no dia-a-dia acabamos esquecendo disso e passamos a agir e a fazer planos como se fôssemos eternos…