Quando no início dos anos 1990 resolvi estudar música na Alemanha, fui sem bolsa de estudos, de maneira que, para me sustentar, trabalhei durante o primeiro ano em diversas atividades até o meu alemão ficar mais ou menos decente e eu começar a dar aulas de piano num conservatório: fui garçom, atendente noturno num hotel, chapeleiro no teatro (adorava, pois podia assistir de graça a toda a programação) e até mesmo ajudante de confeiteiro.
Era uma confeitaria enorme, quase industrial. Nos primeiros dias fiquei horas e mais horas só limpando morangos, saía de lá que nem Chaplin em Tempos Modernos, as mãos repetindo os mesmos movimentos no ar. Depois fui promovido, passei a montar tabuleiros para um doce no qual tudo que eu tinha a fazer era dispor frutas em diagonais: uma fileira de pêssegos, uma de morangos, uma de kiwis, uma de pêssegos, uma de morangos, uma de kiwis etc. etc. etc.
Bom, depois de três dias eu não aguentava mais fazer aquelas malditas fileiras: comecei a fazer losangos, espirais e outras figuras geométricas. Apareceu então a supervisora, uma mulher enorme chamada Frau Pappe, que perguntou gritando (ela não falava, só berrava) quem tinha feito aquilo. Timidamente, já com aquela cara de “pronto, fiz merda”, admiti a responsabilidade. Ela chamou então o gerente, que me disse “Parabéns, Herr Heller, ficou lindo! Em trinta anos nunca ninguém aqui teve essa ideia! Infelizmente, na hora de cortar haverá mais de uma fruta que de outra, por isso terá que refazer tudo, mas mesmo assim parabéns, quem sabe um dia o Sr. não se tornará um mestre confeiteiro?“
Inacreditável!!! Alguém ficara trinta anos fazendo aquelas diagonais! Mais três semanas e eu teria me suicidado mergulhando numa bacia de pêssegos. Mas não atribuí minha insubmissão ao fato de ser artista, e sim à minha latinidade: a gente não se aguenta. Furamos filas, ignoramos regras, falsificamos a assinatura dos pais no boletim escolar (só fiz isso algumas poucas vezes, juro), burlamos leis, atravessamos fora da faixa, cruzamos sinais vermelhos, sonegamos um impostozinho aqui e outro ali. Somos “inventivos”, “criativos” – para o bem e para o mal. Mas quem sabe isso ainda não fará de nós mestres confeiteiros?
Alberto Heller


4 Comentários. Deixe novo
Que maravilhosa e diversificada experiência. Sem dúvida, um aprendizado para toda a vida. Esta diversidade fez com que você desse o devido valor às oportunidades que lhe apareceram na vida.
Sim, caro Derli, aprendemos com tudo e com todos, sempre. Abraço!
Muito bom. As experiências, sendo elas boas ou ruins, fazem com que cresçamos na vida.
Verdade, Nadio! Abraço!