Uns anos atrás um grupo de detentos escapou de um presídio no Paraná, sendo recapturado pouco tempo depois. Lembro-me que um dos presos, quando entrevistado pelo repórter de um programa de TV, estava visivelmente indignado e bradava: “Só estou exercendo meu legítimo direito a tentar fugir da prisão“. Na época achei aquilo engraçadíssimo – hoje, tenho dúvidas.
Se alguém comete um delito e é sentenciado, deve conformar-se em cumprir sua pena. Caso queira infringir (novamente) a lei e fugir, isso é outro problema. E quanto a achar que isso possa ser legítimo, é outro problema ainda. O que me deixa pensativo não é isso, mas o fugir de prisões de forma geral. Especialmente das prisões invisíveis: as do espírito, da mente, do trabalho, do sistema.
Em 1785 o filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham criou a ideia do panóptico: uma estrutura arquitetônica que permitiria a um vigilante observar pessoas sem que estas soubessem se estavam ou não sendo observadas. Ao publicar seu projeto numa série de cartas em 1787, na capa se podia ler a seguinte apresentação: “O Panóptico ou A Casa de Inspeção: contendo a ideia de um novo princípio de construção aplicável a qualquer sorte de estabelecimento no qual pessoas de qualquer tipo necessitem ser mantidas sob inspeção: em particular às casas penitenciárias, prisões, casas de indústria, casas de trabalho, casas para pobres, manufaturas, hospícios, lazaretos, hospitais e escolas; com um plano de administração adaptado ao princípio“.
[Pena que na época ainda não se usasse a expressão “seus problemas acabaram”, teria ajudado no marketing] De todo modo: supondo que estivéssemos num tal sistema, deveríamos nos submeter (docilmente, como diria Foucault) ou resistir, eventualmente até fugir?
Caso você (sim, você mesmo: sabemos quem é e onde mora) opte pela fuga, por favor sorria: está sendo filmado. E não, você não tem direitos sobre o uso da imagem. E sim: já está no YouTube e circulando nas redes sociais (aliás, acabei de postar lá um comentário, eu e outros 145 – 146, 147, 148…).
Alberto Heller



4 Comentários. Deixe novo
Excelente
Obrigado!
A alma humana nasceu livre e, mesmo que justa e legalmente, quando acometida a sofrer uma pena detentiva não vai se submeter voluntariamente a cumprí-la. Se esta atitude for certa ou errada depende do ponto de vista. Sempre haverá opiniões a favor ou contrárias e cada qual terá o suporte de inúmeras teorias filosóficas, mas o ponto, a meu ver, é que quando perdemos a vontade de lutar pela nossa liberdade teremos perdido nossa humanidade.
Verdade!