Sofri muito bullying. Por anos, ir à escola representava um tormento: os valentões que, em grupo (sempre em grupo, os corajosos), ameaçavam, torturavam, batiam, xingavam, provocavam. Puro terrorismo físico e psicológico. Nas festinhas (as famosas festinhas do começo dos anos 1980) não era muito diferente, de maneira que desenvolvi uma mistura de medo, repulsa e raiva por ambos, a escola e as festas. Foi assim mais ou menos dos dez aos quinze anos de idade.
Mas aos quinze comecei a tocar à noite num piano-bar (foi um sufoco convencer meu pai a assinar a permissão de trabalho no juizado de menores), e de uma hora pra outra me senti acolhido e respeitado. Principalmente pelos bêbados que frequentavam o local. Um deles, viciado em vodka e que ia lá quase todas as noites, insistia em me dar conselhos; “o segredo” – disse ele certa vez em meio a uma chuva de perdigotos etílicos que salpicavam meus óculos – “é não deixar elas gozarem, senão se apaixonam“. Ah!, a glória do mundo dos adultos! Mesmo entendendo na hora o porquê dele estar sempre sozinho enchendo a cara, achei o máximo poder pertencer a esse mundo às vezes sórdido mas tão menos cruel e brutal que o da escola.
Os anos passaram, fiz amigos, passei a pertencer a grupos. Mas sempre com um pé atrás, esperando ou sabendo que a qualquer momento viria o tapa, a traição, a sacanagem, o machucado. Minha experiência era a de que os grupos são, por natureza, hostis. Não apenas com os de fora, mas também com os de dentro, obrigados a pensar igual. Seja diferente e será castigado, pense diferente e será execrado. Hoje fujo de quase todos os grupos: os sociais, os políticos, os religiosos e, mais recentemente, os de WhatsApp.
Admiro os tigres que, diferentemente de hienas e de outros animais, não caçam em bando, mas sozinhos. Gosto desse jeito, sozinho sem ser solitário. Aprazo-me com essa ideia, satisfaço-me com essa imagem de mim mesmo fora dos bandos, fora dos rebanhos e das manadas. Mas aí o tigre chega em casa e encontra na caixa de correio as contas de luz, água, telefone, TV a cabo, internet, IPTU, IPVA, seguro saúde, seguro do carro… e é relembrado de que, gostando ou não, pertence ao grande grupo dos que pagam contas: a inclusão suprema.
Alberto Heller
QUADRO: “A porta do inferno”, de Paulo Gaiad


2 Comentários. Deixe novo
BIngo! Adorei! 🙂
Nunca sofri de importunações na escola porque eu usava uma corrente no lugar do cinto da calça, já que nem diretora nem professores estavam muito preocupados com o ambiente escolar.