Veio-me à memória estes dias um congresso sobre educação musical do qual participei em Frankfurt, na Alemanha; a palestra por mim mais aguardada no evento era a de um importante autor na área da psicologia musical, Rolf Oerter. Seu tema, na fala daquele dia, era a questão do talento: como (e quando) percebê-lo em crianças e jovens. Logo de cara, chocou a plateia ao declarar que, de acordo com sua experiência, só era possível saber se alguém tinha talento para a música depois de cinco ou seis anos de prática. Ou seja: que facilidade ou dificuldade nos primeiros meses de estudo não queriam dizer praticamente nada. Com o passar do tempo, era uma soma de vários outros elementos que produziam um diferencial, tais como a capacidade de passar muitas horas sozinho estudando, a paciência para repetir trechos centenas de vezes, a perseverança e, acima de tudo: a capacidade de lidar com frustração. Porque a experiência da frustração é diária: as notas que insistem em sair errado, a sonoridade almejada e não alcançada, a técnica que leva uma quantidade absurda de anos para estabilizar-se (e que mesmo depois disso nunca chega a dar garantias absolutas), os nervos que ocasionalmente falham, o corpo e seus ânimos que teimam (graças a Deus) em não ser máquina e mudam permanentemente. Em música, não importa quão bem tenha soado, sempre pode soar melhor. É o paraíso (ou inferno?) dos neuróticos perfeccionistas que transformam a música em algo a ser continuamente conquistado, melhorado, ultrapassado (também o esporte sofre disso e com isso: o prazer que o corredor sente em correr é bom, mas do esportista profissional se espera mais que prazer, se espera resultados, competições, vitórias).
Fico pensando: existe o talento para a vida? Ouve-se sempre que na vida você tem que ser “um vencedor”; só “ter prazer” não basta – afinal, isto não é para amadores: é preciso ter metas, empenho, desempenho, resultados. É preciso “chegar lá” (seja lá onde isso fique). E prepare-se: você tem que saber lidar com frustrações: com os empregos medíocres, os salários ruins, os amores perdidos, o corpo fora dos padrões de beleza das estrelas de Hollywood, a poeira que insiste em se instalar sobre os móveis, os pratos que insistem em povoar a pia, as contas que insistem em encher a caixa de correio, os entes amados que insistem em morrer. A vida não é fichinha, é preciso ter talento. Eu não tenho. Mas quem sabe a próxima música sairá melhor.
Alberto Heller


8 Comentários. Deixe novo
Que bacana, querido Alberto. Isso mesmo! O ser humano tem talento infinito para ser melhor, mas sem cobranças, precisa vir dele próprio, não para responder ao sucesso, mas para a sua própria auto realização. Isto que me facina !
Muito interessante esse pensamento querido, faz refletir, mas tu tens talento sim e sabes desfrutar além das metas e compromissos, o que nos faz ser felizes com o que fazemos.
Muito interessante esse pensamento querido, faz refletir, mas tu tens talento sim e sabes desfrutar além das metas e compromissos, o que nos faz ser felizes com o que fazemos.
Sempre penso que Deus foi injusto ao nos fazer perder a memória da vida passada, porque se talento é 5% de inspiração e 95% de transpiração, se tivéssemos memórias passadas, poderíamos ter mais talento a cada vida, não acha? kkkk! Excelente texto! Talentoso pensamento! E quanto à próxima música? Sem dúvida será melhor do que a última, sempre! Ainda mais perfeccionista do jeito que você é! Abs!
Lindo texto,prezado Alberto! Digno de profundas reflexões sobre as cobranças e a técnica em detrimento da arte em si! Abraços!
Olá Alberto, sou seu fã desde a Fenomenologia da Expressão Musical. Como professor de música me intriga também essa questão do dom e do talento. O fato deste constante aperfeiçoamento, e com ele as constantes frustrações, céu e inferno ao mesmo tempo, me fez lembrar um artigo que escrevi e trata desta condição humana de sermos perfectíveis. Segue caso lhe agrade a leitura. Abs. http://www.tribunadeitapoa.com.br/9348/perfeito-nao-melhor-perfectivel
Penso que Karl Kraus foi decisivo nessa questao: o importante nao eh TER talento, mas SER talento…
Ótimo texto Alberto. Me lembra o texto de Nietzsche que se chama Schopenhauer como Educador, no qual defende que o problema fundamental da educação é aprender a lidar com e tédio.