Trabalhei por vários anos num projeto de artes integradas que visava o desenvolvimento da criatividade dentro de uma dimensão terapêutica (sem pretender ser, porém, arte terapia ou prática similar). Éramos vários artistas, cada um de uma área (música, dança, teatro, artes plásticas, cinema, fotografia, literatura). Aprendi muito com as crianças, jovens e adultos que participaram nesses estúdios (palavra que escolhemos para evitar oficina, aula, workshop etc., que poderiam dar a entender que fôssemos professores ou que estivéssemos ali no intuito de ensinar algo que sabíamos a pessoas que não sabiam – o que absolutamente não correspondia à realidade). Um caso me marcou muito (como sempre, um dos ditos “casos difíceis”): um garoto de uns oito anos que chegou lá com o “diagnóstico” de hiperativo. Mesmo sendo contrário a tais estigmatizações, o termo parecia acertado: o menino não parava um instante nem conseguia se concentrar por mais que alguns segundos em qualquer atividade. Como se isso não bastasse, era notavelmente destrutivo: quebrava todas as peças de arte que produzia (e, se não cuidássemos, também as dos colegas), rasgava as pinturas, enfim, destruía o que lhe aparecesse pela frente. Não porque fosse agressivo (paradoxalmente, era muito doce), nem o fazia por mal, simplesmente tinha prazer em quebrar, rasgar, destruir.
Num dos últimos encontros do semestre resolvi fazer com cada um dos participantes um vídeo; no caso dele, sugeri que fizéssemos um vídeo no qual ele poderia ficar justamente quebrando coisas. Ele adorou a ideia e logo a pusemos em prática. Selecionamos um monte de peças de argila, as colocamos no chão e ele escolheu um pedaço de bambu para o massacre. Batia, batia, batia, juntava os pedaços, observava-os com interesse, colocava-os novamente no chão e a bateção recomeçava. O processo teve inúmeras repetições. Pela primeira vez, ele ficou concentrado (completamente concentrado) por vários minutos numa mesma atividade (chegou a quase dez minutos!). Os destroços iam ficando cada vez menores, e cada vez com maior interesse e fascínio ele os estudava, para depois reagrupá-los e quebrá-los mais um pouco. Em certo momento trocou o bambu por um martelo de borracha. A essa altura, as peças de argila mais pareciam ruínas de alguma antiga civilização perdida, para depois parecerem apenas um monte de areia – mas ele continuava batendo e estudando atentamente as partículas obtidas. Seus olhos brilhavam, seu corpo fluía. Foi quando, finalmente, me dei conta: ele não estava destruindo, estava criando.
[Mais tarde, pedi que cada um escolhesse uma trilha sonora para seu vídeo; após analisar diversas opções, ele se decidiu por Black Sabbath – Heaven and Hell. Ficou uma obra de arte.]
Alberto Heller


1 Comentário. Deixe novo
Gostei demais de sua apresentação sobre " Estamos destruindo ou criando".
Fácil aplicar e difícil de explicar. Mas vamos tentando. Linda quarta feira para vc