Num artigo escrito às vésperas do Natal de 1964, intitulado “Carta ao meu filho”, Umberto Eco declarava, na contracorrente dos movimentos em prol do desarmamento e da não-incitação à violência, que daria de presente ao seu filho armas de brinquedo. Montes de armas, dos mais variados tipos. Porque ao brincar de guerras e batalhas o menino aprenderia, ludicamente, a diferença e os limites entre fantasia e realidade, entre jogo sadio e ódio insensato.
Já nos últimos anos as discussões pedagógicas (especialmente entre os partidários do “politicamente correto”) mudaram o foco de suas críticas, nem se lembram mais das tais armas de brinquedo (e os que delas se lembrarem certamente sentirão saudades): a questão agora é quais aparelhos eletrônicos dar às crianças (smartphones, tablets, computadores), quando, quanto e de que modos permitir seu acesso etc.
Dilemas. Dar ou não dar armas; dar ou não dar celulares; permitir ou não permitir livre acesso à internet. Todo dilema evita uma questão mais central, que permanece oculta. Criamos e nos enredamos em estratégias de irrelevâncias nas quais, sempre ocupados, esquecemos de fazer as perguntas pulsantes, aquelas que sangram. Buscamos incessantemente, mas a busca nos protege do encontro. Desviamos sistematicamente o foco, permanecendo refratários ao que é fundamental, anestesiados sob montanhas de banalidades. Indagados se preferimos A ou B, sofremos e nos angustiamos pela resposta correta, e enquanto isso esquecemos de pensar em C (e em X, Y, Z) – naquilo que (se) cala. Como répteis perante um facho de luz intensa, ficamos paralisados, hipnotizados; nos ocupamos até o limite, e enquanto isso continuamos falhando miseravelmente naquilo que é mais crucial.
Alberto Heller


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Aos que tudo proíbem, meus pêsames. Proíbem pela praticidade de não precisar explicar.
Há muitas informações sim, mas o certo é a atenção constante de observar, explicar, orientar e sanar dúvidas. O contrário, é alienar! A diferença entre os brinquedos de guerra e os jogos atuais está na sociabilização que os brinquedos ofereciam e ainda oferecem. No entanto, não importa se a brincadeira é virtual ou não, o que importa é o amor que os adultos dedicam às crianças em formação. Os exageros ocorrem por falta de amor (atenção) dos adultos que, vivem suas vidas "sem tempo", esquecem de valorar e valorar-se; sabem apenas cobrar. Mas, como cobrar o que não se ensina?
Não há certo ou errado se acompanhado e devidamente orientado. Não há certo ou errado quando a educação passa ser uma arte.
A arte, exige muito amor e total dedicação.