Escreve Fernando Pessoa em seu Livro do Desassossego (nº42): “Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa – não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio“.
Asseio: limpeza, higiene – aquilo que fazemos para nos livrar da sujeira. A sujeira que, inevitavelmente, se acumula. No corpo e na vida. E à qual nos habituamos (incrível quão facilmente nos habituamos!). Sujeiras que passam a fazer parte do nosso rosto e da nossa biografia, máscaras que, por um motivo ou outro, precisamos usar e que agora se confundem com a própria face. Chega então o dia em que você se olha numa foto e sente o desconforto: aquele não é você. Quando deixei de ser eu? Quando me perdi? Quando passei a representar papéis?
Fernando Pessoa, novamente (ibidem, nº39): “Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou. (…) Nem sequer representei: representaram-me“. A sociedade, os valores, a cultura, a educação. Tantos deuses a agradar… tantos diplomas a honrar… tanto “tempo investido” com o qual eu deveria, agora, lucrar…
Os “deveria”… Sujeira que resiste às melhores faxinas. Até porque crescemos pensando que era algo digno, belo, limpo (FP, ibidem nº21: “Haja ou não deuses, deles somos servos“). Servimos, tornamo-nos servis; escravos de projetos que sequer são nossos. Acordamos então um dia e percebemos que a história (“nossa” história) se tornou pesada, se tornou um fardo. Viramos Sísifos (os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso; pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança).
É o momento do asseio. Sabe aquela sensação gostosa depois de um bom banho? Pois é: a leveza. A bela e sagrada leveza.
Alberto Heller

