É uma pena quando os elementos de um debate (seja ele político, filosófico, religioso ou outro) são reduzidos às possibilidades A e B. Uma pena porque, ao reduzir as infinitas realidades a A e B, reduzimo-nos também nós: ou somos A (e pertencemos a A), ou somos B (e pertencemos a B) – sendo que ambas as pertinências se tornam, nessa lógica binária, mutuamente excludentes (ao identificar-se a A você automaticamente se opõe a B e vice-versa). Reduzimos assim a existência a opostos ideais: branco e negro, bem e mal, masculino e feminino, direita e esquerda. Passamos a ser representantes do que não somos, ou melhor: passamos a ser representados por algo que não reflete nem de perto nosso todo.
Pense na seguinte afirmação: “Há dois Brasis: o dos que gostam do saci-pererê, e o dos que não gostam”; se você parar para pensar em qual resposta se enquadra, pronto: já foi tragado por essa lógica, já foi ‘enquadrado’ num dos ‘grupos’. Capturados pela pergunta, ficamos condenados a responder de acordo com opções já dadas (e optar é algo bem diferente de ser livre). Quanto à resposta, é irrelevante. A única resposta relevante nesse caso seria uma que questionasse a própria pergunta e o próprio perguntar.
Mas somos educados (ou adestrados?) e acabamos respondendo (o orgulho escolar de responder corretamente às enquetes). Desse modo, somos capturados, cooptados, induzidos a responder à lógica binária, abdicando sistematicamente à liberdade nobre e criadora – a liberdade que não é optar por A ou B, mas construir para além de A e B.
Por que caímos nessa? Simples: porque é mais fácil. Ante a opção, nos isentamos da responsabilidade (latim: responsa + habilidade: habilidade de resposta) de ter que criar (isso dá um trabalho danado). Optar não é responder (e é tão mais fácil ser irresponsável).
Vivemos a democracia como se estivéssemos num daqueles programas de auditório em que se dá prêmios aos que acertam as respostas. Mas só quem ganha é o dono da emissora. Aos “participantes”, apenas as migalhas. E os aplausos do auditório (mas apenas na hora certa, que é quando aparece o aviso luminoso de ‘bater palmas’).
Alberto Heller

