A sociedade nos quer úteis, produtivos. Por isso estudamos muito, por isso nos esforçamos tanto. Afinal (dizem), precisamos ser tecnicamente capazes, competitivos: conciliar eficiência e desempenho, rapidez e qualidade, perícia e destreza. Somos então avaliados de acordo com esses parâmetros, segundo os quais somos “bons” ou “ruins”. Dizemos: fulano é bom, “chegou lá”. Lá onde? Que lugar é esse?
Criou-se a ilusão de um caminho a ser percorrido, de metas a serem cumpridas, alcançadas. Consumidos pela ideia de um projeto, transformamos nossa própria existência em projeto. Esquecemos da beleza do caminhar, movimento esse no qual não andamos “para chegar a um lugar”: porque andamos, cria-se espaço, há lugar. Esse é o tempo do trajeto, do passeio, da caminhada, onde se tem espera ao invés de expectativa (na expectativa o tempo é outro: quando chegar “lá”, serei aquele que, agora, não posso ser nunca).
O problema não é termos projetos; o problema é ver em toda ação a obrigação do útil, do produtivo. A ação torna-se, então, causal: tomamos o agir apenas como o produzir de um efeito – ação como performance(que é quando, ao praticar jogging, por exemplo, não corro, faço meu corpo correr). Confundimos ação com operação, fazer com afazer. Tornamo-nos pessoas atarefadas: tudo virou obrigação, coisa a ser feita. A vida perdeu a graça, perdeu a brincadeira, a diversão, o tesão. Perdeu sua gratuidade. E com isso o tempo ficou curto, ocupado pela agenda.
No caminho mais curto (o do projeto em linha reta, calculado com precisão, o do “meio eficaz e rápido para alcançar o objetivo”) conseguimos a proeza de nos perder. Quem disse que a vida é para ser em linha reta?
Alberto Heller


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Perfeito! Vamos refletir e aproveitar mais a nossa caminhada.