Num estúdio de gravação se isola, tanto quanto possível, os ruídos externos. Mesmo assim, sobram muitos: uma respiração mais acentuada, um roçar no microfone, uma batida do arco na madeira do violino, uma mão que esbarra na tampa do piano. Para esses e tantos outros ruídos indesejados, temos os mais variados softwares que filtram e limpam qualquer sujeira. O resultado final é higiênico, asséptico – profundo e sensual como um banheiro de hospital ou uma foto mil vezes retocada no Photoshop.
Todos os dias nos olhamos no espelho e este nos devolve imagens estranhas: rugas que antes não estavam lá, olheiras que insistem em se intensificar, imperfeições várias que teimam em se multiplicar. Pensamos: isso nos tornará mais feios, por conseguinte seremos menos amados, menos desejados. Bobagem. Não nos apaixonamos porque alguém tem a pele linda, ou cabelos lindos ou seios lindos. Se assim fosse, estaríamos apaixonados por um detalhe e não pela pessoa. E o Photoshop nos rouba a imagem desse ser por quem nos apaixonamos, transformando-o em algo outro, irreconhecível; em prol de ideais genéricos, o que era único foi apagado: ao invés do nosso ser amado, agora nos deparamos com apenas um belo ser, mais um entre milhões de outros.
Sabe aquela nota lá “pura e afinada”? É uma ilusão acústica; junto a ela soam várias outras notas, consoantes e dissonantes (um espectro sonoro denominado série harmônica), resultando em ondas sonoras altamente complexas e multiformes. É a beleza do som: sua assimetria; sua imperfeição. Sua insondabilidade (céus, sempre quis usar essa palavra!). A beleza que, sempre única, pode ser amada. E por que uma nota, podendo ser amada, preferiria ser admirada?
Alberto Heller


5 Comentários. Deixe novo
A insondável Beleza do ser (Im)Perfeito
O que seria da ilusão se a maquiagem fosse perfeita? E o que seria da insondabilidade se o espectro sonoro fosse simétrico e totalmente perfeito? Adorei o seu texto!
Obrigado Chica! Beijo!
O que seria da simples luz, se não pudéssemos ver seu espectro através do cristal? Tudo depende do ponto de vista. Tudo mesmo! A beleza, ou o amor, também! Belo ponto de vista!
🙂