Dizem que aprendemos mais com exemplos que com meras palavras. Em relação à questão ética, um dos exemplos que vivenciei e que tem me voltado com frequência à memória se deu com meu professor de piano em Weimar, na Alemanha: Peter Waas. Era (é) um homem que, antes de falar, sempre ponderava muito – o que não era para menos: fazia pouco tempo da reunificação das duas Alemanhas, e ele vivera toda a sua vida na então DDR e na Rússia; uma palavra em falso e o Stasi (a temida polícia secreta) já estaria à sua porta convidando para um nada agradável “bate-papo”. Mas voltando ao exemplo: a cena que me vem à lembrança se deu por ocasião do concerto de um pianista norte-americano, que incluiu em seu repertório uma obra de Bach a qual também eu na época estava estudando. Para meu deleite e orgulho juvenis, a interpretação dele apresentou vários problemas (o que, na minha cabecinha oca, fazia da minha interpretação algo aparentemente superior). Finda a apresentação, pedi ao professor Waas sua opinião sobre o evento, já me deleitando antecipadamente com as críticas duríssimas que ele certamente faria (nunca, em toda a minha vida, encontrei alguém mais perfeccionista – doentiamente perfeccionista – que esse cara). Ele pensou, pensou, pensou (mais de trinta segundos), e finalmente disse: “Receio discordar da linha de interpretação adotada pelo Sr. X” (designando-o muito respeitosamente pelo sobrenome), e passou a mencionar detalhes técnicos sobre os quais discordava (andamento, articulação, fraseado etc.), em momento algum fazendo qualquer observação zombeteira ou desdenhosa. Falou como se o sujeito estivesse à nossa frente e ainda por cima acompanhado por uma junta de especialistas. Nem por um segundo o desrespeitou, não falou em tom leviano, não fez fofoca. Senti naquele momento minha face ruborizando, dando-me conta da minha pequenez de espírito. Aquilo foi um tapa que dói até hoje. Quando me flagro fazendo comentários maldosos e/ou impensados, lembro-me do Herr Waas (infelizmente, quando já é tarde…).
Alberto Heller


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"Receio discordar da linha de interpretação adotada pelo Sr. X" – Vou usar para corrigir meus alunos, daqui pra frente.. 😀