A julgar por relatos e gravuras, os enforcamentos públicos (por exemplo em 1600, 1700, 1800 – na Europa, América e outros lugares) deviam ser eventos incrivelmente festivos: famílias inteiras iam às praças, aproveitando para comer, comprar/trocar, se divertir e “fazer um social”. Imagino as crianças (e não só elas) ávidas pelo espetáculo, os olhinhos brilhando em ansiosa antecipação, os comentários (indignados, raivosos, zombeteiros, compadecidos), ora sussurrados em segredo, ora berrados aos gritos. Enfim, uma festa. Considerando a falta de estádios de futebol, arenas de gladiadores e afins, uma excelente opção. A velha curiosidade humana pela morte, a felicidade de ser o outro e não nós, nossa morbidez disfarçada em senso de justiça, o fascínio pela desgraça alheia (assim como, hoje, as pessoas diminuem a velocidade de seus carros ao passar por cenas de acidentes e, chocadas/estarrecidas/maravilhadas, se horrorizam com o sangue e os corpos despedaçados).
Mas voltemos à praça em festa: surge o carrasco (frêmitos na multidão), o padre faz suas orações (ah, a delícia de se prolongar os rituais), finalmente o corpo cai (gritos, oooohhhs, desmaios), balança por um tempo e se aquieta. Silêncio. No momento da morte, o enforcado expia nossos pecados (como o famoso bode descrito em Levítico 16). Hora de voltar à festa, de CELEBRAR – afinal, estamos (continuamos) vivos. Aleluia!
Hoje a coisa perdeu a graça, as praças perderam o encanto, não mais nos presenteiam com essas alegres diversões. Mas quem precisa de praça quando se tem a internet? Apedrejamentos, linchamentos, torturas, forcas, guilhotinas – tudo isso e muito mais você encontra nas redes “sociais” (e aqui caberia o famoso kkkkk). Avidamente espreitamos e aguardamos pela vítima da vez. Um político corrupto? FORCA!!! Um desastre ambiental? FUZILAMENTO!!! Terroristas? Tortura lenta com direito a álcool e sal grosso nas feridas. Inventaram uma nova hashtagpara falar mal dos homens? #PAU NELES!!!! Aproveite: é de graça, é divertido, é fácil, as pedras estão à sua frente, espalhadas entre as teclas de seu computador.
Alberto Heller


3 Comentários. Deixe novo
O velho ditado: pimenta no cu dos outros é refresco.
A ânsia de condenar no outro os próprios defeitos com julgamento e condenação sumários.
Se houvesse uma guilhotina na Praça da Sé tenho certeza que multidões disputariam espaço para ver as cabeças rolarem. O mundo não mudou
Pois é… triste realidade. E você só se esqueceu de complementar, que o "rol de atingidos" na praça pública, era "só" os presentes na praça… Agora, as pessoas se esquecem que "a praça" ganhou dimensões de "planeta". Nada é dito ao outro em praça pública (da internet). Você diz ao mundo inteiro! Por isso não existe mais "piadinha", "trotezinho", "zuadinha"… Tudo ganha dimensões universais, tanto para o bem, quanto para o mal. E as pessoas não terem consciência disso, é assustador! Muito mais assustador do que ver um enforcamento em praça pública em séculos passados! Parabéns pelo excelente texto e maravilhosa percepção comparativa!