Quem há duzentos anos viajava de carruagem ou mesmo de navio ouvia todo o seu percurso. Mesmo os primeiros carros a motor ainda o permitiam. Hoje, fechamos as janelas, ligamos o ar condicionado e ouvimos música. De preferência, as que selecionamos previamente – as famosas setlists. Por que aturarmos o gosto alheio se podemos acessar música por streaming(Spotify, Deezer, Apple Music etc.)? E não só no carro: no avião, nas filas, na academia, coloco meus fones de ouvido, isolo-me do mundo e dos outros (e de suas escolhas infelizes, de seu gosto “horroroso”). Agora tudo tem minha própria trilha sonora. Não escuto mais os outros, escuto apenas a mim mesmo. Grito ininterruptamente meu eu, não há mais espaço (nem interesse) para/pelo outro. Silencio o outro (que resta agora apenas como fundo ou alucinação). Satisfaço-me numa repetição infinita de mim mesmo, alienação masturbatória ad infinitum, intolerância total a tudo que seja diferente, a tudo que não me agrade. Alieno-me na vivência pessoal e me isolo de qualquer ex-periência (ex: que vem de fora). O problema das fortalezas e dos castelos: parecem seguros, mas uma vez ali encerrados, corre-se o risco de morrer por inanição. Mas tudo bem: morreremos ouvindo nossa setlist, nossa seleção pessoal para o apocalipse.
Paralelamente, a literatura de autoajuda vive nos dizendo: vocêtem a escolha, você decide, você é o responsável por sua felicidade ou infelicidade. Ótimo!, tudo parte de mim: o mundo é uma escolha e posso escolher o que quiser. Sou o Senhor das Escolhas! Dane-se o mundo (o cosmos, o universo, a natureza, os deuses, os outros, o acaso): tudo depende agora única e exclusivamente de minhas decisões (afinal, posso “sonhar”, posso tornar-me o que quiser – é “meu direito” –, posso me inventar e reinventar quando e quanto quiser). As crianças mimadas do século XXI: não mais permitimos sermos frustrados em nossos desejos (que passaram a ser direitos e exigências); a felicidade passou a ser um direito (por isso reclamamos tanto), e o outro costuma ser um empecilho, um inconveniente entre eu e a felicidade. Não se preocupe, você não precisa mais olhar para a cara feia de seu vizinho na fila do banco: olhe para seu celular. E se tiver um fone do ouvido, perfeito: o mundo agora é seu.
Alberto Heller


1 Comentário. Deixe novo
Muito bom Alberto. Parabéns pelo texto. Pura verdade.