O pianista austríaco Alfred Brendel (1931), além de parecer uma mistura de Michael Caine com Woody Allen, foi e continua sendo uma das principais referências na interpretação do estilo Clássico, especialmente Beethoven e Schubert. Gravou a integral das Sonatas para piano de Beethoven (32 magníficas obras) pela primeira vez entre 1962 e 1965 (Vox); regravou-as nos anos 1970, (Philips), e uma terceira vez entre 1990 e 1996 (Decca). Não é pouca coisa.
Imaginamos que a cada gravação sua interpretação foi ficando mais bonita, mais refinada, mais “redonda”. Não é necessariamente o caso: em muitos momentos, sua sonoridade tornou-se mais áspera, mais seca, mais dura. Não que tenha perdido a beleza, mas sua concepção passou a integrar outros tipos de sons que o compromisso inicial com uma “beleza genérica” antes deixara de fora. A questão deixou de ser “tocar o mais lindamente possível”; a maturidade artística (inseparável da maturidade pessoal) significa muitas vezes incorporar a vida em sua totalidade, o que inclui dor, sofrimento, desesperança, tédio, raiva, decepção, amargura e tantas outras coisas. Isso não a torna “feia”: torna-a completa, rica, profunda.
Creio que a maior parte do público ainda prefira a primeira gravação; é mais “bonita” (assim como os paladares não preparados preferirão os vinhos mais adocicados). Eu nem chego a tentar me decidir: apenas fico grato pela oportunidade que temos na vida de mudar e de nos transformar.
Alberto Heller

