Meus pais ouviam muita música clássica em casa; alguns discos eu gostava, outros suportava. Aos poucos, comecei a procurá-los por minha própria conta, até o dia em que descobri um de capa azul celeste com obras de Schubert – entre elas, o Improviso Op.90 nº3 em sol bemol maior. Eu devia ter uns nove anos, e me lembro que fiquei extasiado. Aquilo me levava a um lugar especial, a uma melancolia doce e outonal, uma saudade de algo que não conhecia ou esquecera. Depois de ouvi-lo umas vinte vezes, decidi-me: comuniquei à minha mãe meu desejo de aprender a tocar piano.
Nos primeiros dois anos de estudo o Improviso se mostrou inviável. Mas pouco depois, mesmo contrariando o bom senso e realismo da professora, resolvi que chegara a hora. Não apenas isso, como que iria tocá-lo no recital de final de ano da escola, que seria no belo auditório da Biblioteca Pública em Curitiba. A professora tentou me explicar que em apenas dois meses isso seria loucura, o que me fez gostar ainda mais do desafio. Estudava o dia inteiro (coitada da família e dos vizinhos); nota a nota, compasso a compasso, aprendi e memorizei a partitura com seus muitos bemóis.
Chegou o dia da apresentação e, finalmente, toquei a obra que me levara ao piano. Foi a glória. Mesmo o comentário negativo de minha avó (ela sempre tinha comentários negativos sobre tudo) de que eu abusara do pedal não afetou minha sensação de triunfo.
Hoje, aos 44 anos de idade, ainda tenho essa obra – e seu compositor – no coração. Toco-a somente de vez em quando, como aquelas bebidas raras e refinadas que apreciamos com intensidade mas em pequenas e distanciadas doses. E ainda hoje sinto, ao tocá-la, o mesmo outono adocicado, a mesma saudade de um outro mundo que não o nosso.
Alberto Heller


1 Comentário. Deixe novo
Alberto, não foi por acaso que ao ler um manuscrito dele, Beethoven escreveu "este possui a centelha divina ". Pena que ele seja tão pouco valorizado e divulgado. Quanto ao Impromptu é de uma beleza única, e nos leva a outro mundo.
Interpretá-lo continua sendo um desafio( dos melhores ).
Marilene