Durante meus anos de estudo na Alemanha fiz amizade com um casal que se conhecera há pouco, ele um compositor alemão, ela uma pianista armênia. Certo dia, ela o presenteou com um CD do norte-americano Samuel Barber (incluindo sua obra preferida, o Adagio para cordas), presente que o namorado recusou veementemente dizendo: “Não posso ouvir a música de alguém que, durante a guerra, participou como piloto da aeronáutica e soltou bombas na minha cidade, Potsdam”. Discutimos longamente se a obra não poderia, mesmo assim, ser apreciada, mas ele se mostrou inamovível.
Semana passada, numa livraria, fiquei algum tempo lendo trechos de um livro chamado Heidegger: a introdução do nazismo na filosofia, onde seu autor, o francês Emmanuel Faye, condenava implacavelmente a obra de Heidegger (TODA ela), alegando ao longo de 600 páginas que não há uma só linha em seus escritos que não esteja contaminada dessa perigosa ideologia, e que seus livros, portanto, (todos eles), deveriam ser queimados, proibidos ou, no mínimo, vendidos com advertências (do tipo: cuidado, ao ler isto você poderá transformar-se num nazista bigodudo).
Até não muito tempo atrás, milhares de estudantes de medicina estudavam anatomia humana através de um livro (brilhante e ricamente ilustrado) publicado sob pseudônimo – escrito por um autor que, descobriu-se mais tarde, viria a ser conhecido como Jack the Ripper. Não sabia disso? Nem eu, acabei de inventar. Mas teria sido macabramente engraçado. Talvez um dia fiquemos sabendo que Machado de Assis era pedófilo, que Guimarães Rosa era um serial killer (o “Matador do Sertão”), que Beethoven era um estelionatário…
Como diria Riobaldo, “Viver é muito perigoso“.
Alberto Heller


2 Comentários. Deixe novo
Pois é…viver é sujar-se e lavar-se, tudo acontecendo com a mesma pessoa.
Verdade, Emerli! Há muito cinza entre o branco e o negro (bem mais que "50 tons" rsrs). Abraço!