É cada vez mais raro encontrar pessoas apaixonadas pelo que fazem. Digo: verdadeiramente apaixonadas. Em minha fantasia (e pode ser que seja só fantasia mesmo), quem no passado escrevia um livro (ou criava músicas, pintava quadros) o fazia por interesse genuíno e não para ganhar pontos no currículo Lattes. Hoje, as pessoas produzem porque “se espera que o façam”; vivem em constante modo de trabalho, em perpétuo regime de produção. Trabalho: um nome nobre que, sob o pretexto da utilidade e da rentabilidade, escraviza o desejo: nada mais é gratuito, toda ação é submetida ao inquérito da causalidade: por que você está fazendo isso? Para quê?
Todos vivem ocupados. Não mais perguntam se você tem algum projeto, mas “em qual projeto você está trabalhando agora?”. É obrigatório estar em pelo menos um (de preferência em vários, o que explicaria você estar sempre em falta com a maioria deles). A agenda: a lista dos afazeres. Afazeres que nunca acabam, só se repetem (a repetição esvaziada de significado, o hábito esquecido de suas origens). O relógio das horas tediosas que nunca passam, das horas achatadas, quadradas, sem fim: a burocracia que parece se imiscuir nos mais remotos rincões de nossa existência e na qual todo eu-quero fenece em favor de um tu-deves. Para alguns, o casamento se torna a burocracia do amor; para outros, o trabalho se torna a burocracia da profissão.
Com o passar dos anos ela se torna rotina; esquece-se então de que é possível viver de outro modo (o perigo da burocracia é que ela se parece muito com a vida – só que sem graça alguma). O espírito burocrático: a não-vida das repartições públicas que contamina de não-calor e desprazer todos os espaço-tempos da existência-cor.
Alberto Heller


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Existencialismo? Marxismo? Freudismo? Nao sei decidir. Mas uma coisa é certa… Existencia-cor.
Bem vindo querido Fernando!