Teve sorte: ao entrar no palco, os refletores o cegaram e o público virou uma massa disforme. Sentou-se ao piano e tentou concentrar-se nas teclas, mas o som ensurdecedor do sangue pulsando nas têmporas tornava a tarefa impossível. Fechou os olhos e respirou fundo. Há quanto tempo estava ali? Segundos? Minutos? A presença daquelas pessoas desregulava completamente seu relógio interno (bem, obviamente desregulava muito mais que apenas seu relógio interno). O impasse foi aumentando ainda mais sua ansiedade – até que decidiu vencê-la no susto: começou repentinamente a tocar. Na verdade, não era exatamente ele quem tocava: algo ou alguém tocava em seu lugar, ele somente observava desde um espaço obscuro, uma espécie de dimensão paralela.
Como um navegante que tenta recuperar o comando de seu navio, tentava achar o caminho de volta ao seu corpo e ao seu agora, mas sem sucesso: tinha virado pedra ante o olhar da Medusa – e cada par de olhos na plateia pertencia a uma das serpentes que substituíam seus cabelos, percebia agora com clareza. Lembrou-se da recomendação dada a Perseu, de nunca encarar a Górgona de frente, somente através de seu reflexo. Buscou na tampa do piano os olhos ameaçadores e lá estavam. Utilizando poderosos acordes, perfurou-os, um a um. Lentamente, conseguiu retornar.
Finda a música, nenhum aplauso: na plateia, apenas estátuas.
Alberto Heller


5 Comentários. Deixe novo
Então é essa a sensação? Sempre tive curiosidade em saber como era tocar para milhares de pessoas olhando fixamente para você! Agora já sei. Obrigada por contar!
Olhando da plateia parece mais divertido, não é? rsrsrs
Com certeza! E bem mais prazeroso, também!!! Essa é a típica situação que enquanto você trabalha, nós nos divertimos!!! Rsrsrs!
Lembra o espírito do teu poema " os pianos enjaulados ficam à mercê dos olhares curiosos do público e os domadores de fraque os enfrentam, temerosos" , imagine a angústia de um ser humano normal , que ainda rasteja na arte, ao enfrentar uma peça a 4 mãos contigo…, é um massacre total. O sangue errou de veia e se perdeu…
O exagero é só para efeito dramático, Marilene, não é tão ruim assim hehehe. Abracão!