Curitiba, 1979, eu então com oito anos de idade; meu pai resolveu levar todos nós – minha mãe, meus dois irmãos mais velhos e eu – ao cinema para ver uma sessão única às 22 horas de um filme de 1958 (Meu Tio, de Jacques Tati ) do qual ele vivia falando e que, tinha certeza, iríamos amar (na verdade, a família odiou e ficou pegando no pé dele por semanas). O cinema se chamava Cine Vitória, talvez o maior e mais elegante de sua época (inaugurado em 1963, funcionou até 1987), com um enorme saguão no andar térreo, ricamente acarpetado.
Graças à mania de pontualidade do meu pai, chegamos quarenta minutos antes da sessão; enquanto a família conversava para passar o tempo, fui xeretar o local e acabei entrando na sala de exibição. Meus pais não se deram conta de que, durante o dia, estava em exibição um filme pornô (sim, naquela época passavam filmes pornográficos mesmo nos cinemas considerados “decentes”). Quando olhei para o telão, qual não foi minha surpresa ao ver um casal trepando na escada de uma piscina! Explicitamente!!! Fiquei ali de pé, olhos arregalados e boca aberta, mal piscava. Depois de algum tempo, ao ver que eu demorava, apareceu meu pai. Olhou para mim, olhou para a tela, para mim e novamente para a tela; deu então um sorrisinho e, para minha inenarrável alegria, voltou ao saguão sem dizer nada, deixando-me ali a ver o filme. Ah, como o amei por isso!
Sei que a história não é politicamente correta, mas a tenho com muito carinho. E não, não me tornei um degenerado por causa disso (pelo menos acho que não). Hoje, ao relembrar o ocorrido, percebo que o que ficou mais forte na memória não foi o registro sexual, mas o sorriso de cumplicidade do meu pai.
Alberto Heller


8 Comentários. Deixe novo
Bela cena existencial.
Bela cena existencial.
Monsieur Hulot faria o mesmo, Alberto… Teu velho e Tati iguaizinhos : Mon père = mon oncle…
Querido Paulo, que legal vê-lo por aqui! Feliz que tenha gostado. Abraço!
Querido Jairo, não tinha pensado por esse lado! Realmente, creio que sim. Abraço!
Boas reminiscências. Lembro muito do teu pai, com um sorriso franco, que rapidamente fazia com que as pessoas tivessem a sensação de que eram seus amigos de longa data
Boas reminiscências. Lembro muito do teu pai, com um sorriso franco, que rapidamente fazia com que as pessoas tivessem a sensação de que eram seus amigos de longa data
Que linda história, Alberto! Feliz por te conhecer cada vez mais. Abraços