A cada ano a tecnologia nos oferece equipamentos de áudio e de vídeo mais impressionantes; já não se trata, como antigamente, de buscar a “alta fidelidade”: quer-se uma hiper-fidelidade que, paradoxalmente, causa certo estranhamento: no cinema e na televisão nos dão tanta cor e definição que nada mais resta a se acrescentar ou a dar em troca. Após alguns minutos vendo imagens em tais aparelhos, o mundo de verdade parece subitamente chato (achatado), opaco, pouco intenso, pouco real.
Como aponta Jean Baudrillard em seu livro A sedução, o que presenciamos é o “delírio técnico de restituição perfeita de uma música (Bach, Monteverdi, Mozart!) que nunca existiu, que ninguém nunca ouviu assim e que não é feita para ser ouvida assim. Aliás, ela não é “ouvida”, é outra coisa, a distância que faz com que se ouça uma música, num concerto ou em outro lugar, é abolida; já não há espaço musical, é uma simulação de ambiência total que nos despoja de qualquer percepção analítica mínima que faz o encanto da música”.
Tal delírio técnico pode ser comparado à pornografia, que nos dá o excesso de real em seu detalhe microscópico, um voyeurismo de exatidão – alucinação do detalhe que põe fim a qualquer segredo. No pornô não temos o mistério do erotismo, não temos tramas, enredos, diálogos; não interessam os rostos (seriam inconvenientes pois restituiriam sentido e pessoalidade), nem as qualidades dramáticas dos atores. Já no erotismo, o que seduz é o que não se vê, ou melhor, a intermitência entre o que se vê e o que não se vê (a dobra do vestido, o decote, o cintilar da pele entre duas peças de roupa: vê-se apenas uma parte, imagina-se o resto, fantasia-se). No pornô, vê-se tudo, demais (quase beirando o grotesco), numa forma tal como provavelmente nunca veríamos durante uma relação sexual. Eis a ilusão do pornô: não é por mostrar mais que ele nos dá mais.
Talvez não seja o caso de nos presentearmos neste próximo Natal com um novo e espetacular Home Theater de US$10.000,00; talvez seja o caso de nos desejarmos, como dizia John Cage, “happy new ears“.
Alberto Heller


1 Comentário. Deixe novo
Para mim, o encanto da música nunca esteve em "ouvir", apeenas, mas em sentir na pele, no cérebro, nos olhos, no corpo, no coração… Por isso as apresentações ao vivo, principalmente das orquestras e das cameratas sempre me emocionam muito… Mais do que os shows pirotecnológicos daqueles que precisam apresentar mais tecnologia para disfarçar a pouca qualidade musical… (kkkkk) falei! A parte boa da tecnologia é que hoje, podemos assistir a um DVD de um excelente cantor, orquestra, camerata, etc, como se quase estivéssemos na sala, ao vivo, e se emocionar "quase" igual! Parabéns pelo ponto de vista, sempre pontual e certeiro.