Mozart era risonho, uma eterna criança; Beethoven era carrancudo, sempre mal-humorado; Schubert, tímido, apesar de festeiro; Händel, exaltado, sangüíneo; Chopin, sempre sofrendo, coitado; Schumann, louco; Liszt, mulherengo; Mussorgsky bebia (homossexualidade não assumida); Wagner, apesar de genial, era antissemita e megalomaníaco; já Brahms era sério, muito sério; Villa-Lobos, um mentiroso (como ao espalhar na França ter escapado por pouco de ferozes canibais na Amazônia); Schönberg, radical e inflexível.
Uma vez munido dessas “valiosas” informações “biográficas”, o intérprete se lança ao trabalho: toca Mozart como quem ri, toca Chopin como quem morre, sucumbindo assim aos piores clichês. Sem dúvida é útil saber que Beethoven era alemão e não australiano – mas até que ponto o conhecimento biográfico nos dá maior ou menor autoridade em relação à interpretação musical? Supõe-se que o estudo das biografias nos daria acesso à “tradição”. Mas, dizia Husserl, a tradição é (também) o esquecimento das origens.
Concordo com este trecho escrito por Marilena Chauí (Experiência do pensamento, 2002, p.191) a respeito de Merleau-Ponty: “Nem sempre o museu e a biblioteca são benfazejos. Por um lado, criam a impressão de que as obras estão acabadas, existindo apenas para serem contempladas, e que a unidade histórica das artes e a do pensamento se fazem por acumulação e reunião de obras; por outro, substituem a história como advento pela hipocrisia da história pomposa, oficial e celebrativa, que é esquecimento e perda da forma nobre da memória. Seria preciso ir ao museu e à biblioteca como ali vão os artistas, os escritores e os pensadores: na alegria e na dor de uma tarefa interminável em que cada começo é promessa de recomeço”.
O mesmo estudo que (pensamos) deveria nos aproximar da obra e mesmo de seu autor torna-se, muitas vezes, obstáculo; lê-se sobre a grandeza, mas em momento algum se vivencia tal grandeza. Falo daquele estudo burocrático, chato, medíocre, do qual nossas escolas e universidades estão cheias.
Lembremo-nos das origens. Vivamos as origens.
Alberto Heller

