Viajamos – mas o projeto da viagem é sempre surpreendido por seu trajeto (nenhum poder de previsão antecipa as inúmeras viagens dentro da viagem). Viaja-se a Roma para ver o Coliseu e eis que a grande viagem acontece no momento fugaz em que nosso olhar se cruza com o de um menino segurando um balão vermelho; nessa troca de olhares abre-se o tempo, abre-se o espaço: somos transportados a um outro mundo, um mundo paralelo, um mundo que se nos mostra ao mesmo tempo em que se nos oculta e que se desfaz tão rapidamente quanto se cria (mais tarde, ao relembrar a viagem, descobrimos que o ponto alto não foi o Coliseu, mas justamente aquela troca de olhares).
Viajamos para ver, mas somos tomados pelo invisível. Eis o convite à viagem: o que se oculta, o que se nega, o que se nos escapa (será o poético a visão da invisibilidade?). Penso poder devorar com o olhar, mas sou devorado pela visão. Quantas vezes olhamos sem ver, ouvimos sem escutar, chegamos aos lugares mas não os atravessamos; nem toda viagem é travessia, nem todo momento transborda.
Viajantes são comumente conduzidos aos pontos turísticos para que possam ver aquilo que, em alemão, se chama sehenswürdig(digno-de-se-ver). Mas o que faz com que algo se transforme em uma Sehenswürdigkeit? O que faz com que algo seja ou se torne digno de nossa admiração? Ou, vendo a questão por outro ângulo: por que às vezes nossa atenção se prende ao que normalmente mal seria digno de nota? Aqui o viajante se flagra estranhamente entediado ante um monumento famoso e subitamente extasiado ante uma pequena flor crescendo numa rocha.
A arte de ver artisticamente: a educação última do olhar.
Alberto Heller

