Quando pensamos nas possíveis relações entre música e terapia (ou, de um modo mais geral, entre terapia e arte), imediatamente nos vêm à lembrança como possibilidade mais lógica de união entre dois campos o modelo da musicoterapia. Mas é possível encontrarmos o musical sem necessariamente “fazermos” música, e podemos, assim, encontrá-lo mesmo numa relação terapêutica tradicional (se é que isso existe). Sugiro a seguinte situação:
O sujeito (paciente, consulente ou o termo que se queira dar) encontra-se à minha frente (eu enquanto terapeuta): seus movimentos – pés, mãos, rosto, tronco – formam uma dança, e mesmo as interrupções que vão ocorrendo fazem parte dessa dança. Não uma dança em sentido tradicional, claro, mas ainda assim, uma dança. De repente, ele suspira e olha pela janela – descortina-se à minha frente um quadro, belíssimo e profundo. Ouço aquele momento de silêncio, atravessado por uma leve brisa que balança a cortina e pelo canto ocasional de pássaros, e desse fundo irrompe a voz do sujeito, conectando com a frase melódica do suspiro – pura música. Sons e pausas dialogam, livres. Há também cheiros, que perpassam minhas narinas e meus lábios, condensam-se sobre minha língua e se transformam em gosto; saboreio e absorvo seu perfume. Estou ali, com todos os meus sentidos, fazendo parte da dança, do quadro, da música, da cena.
Sentidos que se entrelaçam, reversíveis: tateio com os olhos, ouço com o corpo, vejo com os ouvidos. Não se trata de metáfora nem de linguagem poética, mas de uma experiência muito própria (apropriadora, apropriante): algo que em nós se cria. Mas como falar em criação se isso que em mim se apropria surge quase como uma passividade? É difícil pensar-se em criação sem cair em armadilhas semânticas, lógicas discursivas nas quais quem cria, cria alguma coisa – e a partir de onde se infere a existência de um sujeito que faz alguma coisa (sujeito, verbo, predicado, objeto, causalidade, passado, futuro, linha temporal etc.). Na experiência acima descrita diluem-se os sujeitos, diluem-se os espaços e as temporalidades. Mais que uma vivência estética, é uma experiência ética.
Tal dimensão artística é muitas vezes perdida ou negligenciada quando inserido o conceito (congelante) de “Arte”; o artista não lida com arte, lida com o vazio, e neste campo não há segurança alguma: a cada processo/obra, um novo vazio, uma nova angústia se instaura. Ele (o artista) não aprende a dar forma aos vazios, nem sua atividade visa preenchê-los; no máximo, aprende a conviver e a deleitar-se com eles.
Alberto Heller


2 Comentários. Deixe novo
Profundo…
Talvez, todos os sentidos devam ser experimentados.
Talvez, a "ética" deva ser ignorada.
Talvez, a arte não deva ser escrita sobre um grande vazio; mas sobre grandes sentimentos…
Lindo texto…
E é necessário dizer que muito além de ouvir com os olhos, tocar com os ouvidos e cheirar com a boca, existe a alma que enxerga o que não vê, ouve o que não é dito e sente o que não é tocado. Mais, mas muito mais do que nossos corpos, há a aura que detecta e nos transmite sensações que racionalmente não deciframos. Todo artista é um criador e muitas vezes cria tão sem pensar que acha que deveria pensar para criar. Engano. Vocês só criam aquilo que sentem, não aquilo que pensam… por mais técnicos que sejam! Parabéns pelas suas criações!